Meus ídolos moram lá em casa

Desde que sou pequeno tenho uma proximidade muito grande com a minha mãe. Posso dizer tranquilamente que somos grandes amigos. Pra ser ainda mais preciso, posso afirmar que ela é minha melhor amiga.

Comecei a observar as famílias em minha volta (adoro observar pessoas) e reparei que a amizade entre mães e filhos é algo bem comum, já o laço que une os pais com seus filhos é algo bem variável. Conheço diversos casos de pai bêbado, pai agressor, pai que foge de casa. Entretanto, lá em casa nunca foi assim, muito pelo contrário, a relação sempre foi de grande admiração. Vou te contar o por quê.

Você já foi moleque, soltou pipa, jogou bola, certo?

Então imagina se os acasos da vida atrapalhassem essa inocente rotina.

Já imaginou ficar calmo num formigueiro?
Você pobre, sem pai, sem estudo, da onde viria o dinheiro?

Aí você cresce assim…

Em um mundo que privilegia os gigantes, enquanto você é considerado menor que um nó de arame.

Assusta, né?
Talvez essa fosse a melhor hora pra dar no pé.
E imagina pior… quem seria o filho desse Zé mané?

Traficante? Mendigo? Ladrão?
Com tantas desculpas no mundo, pra que arrumar solução?

É melhor ficar sentado, esperando uma virada de sorte.
Mas são nesses momentos que os grandes se superam e não dão margens para os boicotes.

Se mexeu… correu atrás…

Como previsto as oportunidades eram escassas.
Ele não era doutor. Seu salário era pago a preço de bala.

Foi porteiro, faxineiro, jogador amador.

Como crescer sem oportunidade?
Como estudar? Se o salário não paga nem metade de uma faculdade.

Fez supletivo e trabalhou duro.
Porque num mundo de falsos heróis a pobreza não vale de escudo!

Cara… aí o tempo passou e o filho chegou.
E à partir desse dia, comida em sua mesa nunca mais faltou.

O filho teve um mundo: brinquedos, cursos, escola particular…
Para onde foi aquela criança que só tinha como opção roubar?

O filho seguia crescendo…

Faculdade, pós, um trabalho que dava para o seu próprio sustento.
Como essa família venceu diante de tantos dividendos?

É nessas horas que eu penso… a vida segue, os momentos passam e é verdade que os vidros às vezes embaçam.

Mas o que conta de verdade e te faz ser um pouco mais certeiro,
é tentar tirar essa maldita agulha do palheiro.

Já pensou porque em um filme você se emociona com a história daquele guerreiro?
O que ele faz não é encontrar essa tal solução no meio do desespero?

Eu entendo você. É muito maneiro ver aquela história ali no filme estampada.
Mas cara.. nada é melhor que lembrar que, a essa hora, meus melhores exemplos devem tá jantando lá em casa.

Voar, voar, subir, subir…

Esse ano, meu filho me fez percorrer estradas, tocar o mar (sentada num barquinho), e “agora” chegar bem pertinho das nuvens.
Tudo começou no dia 12 de Outubro de 2017. Naquele dia estava programada a minha primeira viagem de avião (Rio/Brasília), mas eu estava tensa, e o que provocava mais essa tensão, era o novo, o desconhecido, porque por mais que tivesse me informado como era essa viagem, eu só saberia, viajando. Tudo era novidade, desde entrar no aeroporto, entrar no avião… e eu ali, inquieta, com uma pergunta que invadia meu ser: O que é que eu estou fazendo aqui? Ninguém tinha me obrigado, e eu estava ali experimentando diversas sensações, porque simplesmente eu quis.

Isso é viver, é se dar uma chance. E a partir daí, dessa chance que me dei, consegui desfrutar de dias agradáveis, onde adquiri conhecimentos, me diverti, saí da rotina, curtindo tudo, até o vôo. Gostei muito de Brasília, foram dias de céu azul, pôr do sol maravilhosos, cidade linda, com lugares interessantes, culturalmente e ecologicamente falando. A viagem de volta foi bem mais tranquila, já estava bem mais relaxada, sentindo até vontade de dar uma caminhada até o banheiro do avião, mas pensei comigo mesma: menos, Vilcinéa, menos, não seja exibida…(risos).

Enfim, chegamos em casa, meu filho, satisfeito por ter me ajudado a realizar mais um desafio, e eu, feliz, por ter conseguido.